(...) Ver o mundo em grão de areia
e o céu em uma flor silvestre,
sustentar o infinito na palma da mão
e a eternidade em uma hora.(...)
"Augúrios de Inocência", William Blake (1757-1827)
Ela poderia sentar
numa cadeira confortável e ficar apenas contando os pontos do seu crochê com
breves e muitos respiros para admirar a nuance de cores com as quais a paisagem desfilava no passadiço entre o horizonte e a rotina.
Entre um número e
outro, entre um buraco criado pelo fio e o mergulho da agulha, o problema dos
amigos iam também passando. As gavetas onde colocaria cada parente, as caixas
arquivando lembranças, questões filosóficas em cadeias significantes frenéticas
tão ativas se diluíam na insignificância num espaço de quinze minutos...
(Penso o máximo de
quinze mas o tempo não é exato como os pontos do tricô... Vamos considerar que
a cada quinze minutos (no máximo) lhe invadia uma certeza que tinha o efeito de
uma bomba com fusão nuclear não controlada, em que dois núcleos menores se unem
e formam um núcleo maior e mais pesado).
Então o ideal não
era desviar-se porque, ora, ninguém podia se desviar de explosões. O melhor era
admitir no ritmo de um profundo respiro: “eu vou morrer”.
A gata preta não
tinha tanta certeza sobre si. O cachorro que escolhia o meio da rua para dormir
tampouco. O passarinho se sentia Deus, certeza. As pombas então! Eram pura
estupidez. E as moscas... Bem... Willian Blake já diria (1)... e etc
A essa altura a cadeia de pensamentos diluía o peso e permitia que o ar fluísse tão leve pelo corpo que chega ela se esquecia que estava respirando ou viva. As cores trocavam de lugar atestando um novo instante.
Então lá vem nova carreira retornando os pontos altos sobre as correntes. Tudo novo, renascido, como deve ter sido o primeiro fim de semana daquele mês do ano da criação do mundo.
Ela não resiste, porém, uma pausa: tira o celular entre os novelos, bate uma
foto de si e procura acontecimentos alheios no aparelho.
(1) A MOSCA
Willian Blake
Pequena Mosca,
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.
Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?
Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.
Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,
Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.
(Tradução: José
Paulo Paes)
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