Quando eu era criança não queria ser bailarina, mas Chacrete.
Quando vou ao brechó já corro pro brilho colorido de tecidos
vibrantes como o cetim e outros bordados.
Quando Bolsonaro venceu, eu usava glitter pra ir a aula na
faculdade e me sentir melhor. Era minha segunda faculdade, eu já tinha 43 anos,
usava o glitter para me defender daquele clima horrível sem nenhum
comprometimento com o bom senso.
O ano de 2019 foi muito difícil. Mas nada, nenhum brilho, me
faria escapar do luto que seguiu a morte do meu irmão. Então fiquei uns dois
anos só usando macacão e camisetas, indiferente ao sentido da indumentária.
Daí o tempo me curou e no carnaval desse ano me enchi de
cores e brilhos novamente. Ao final de quatro dias de festa, senti que estava
novamente acompanhada do meu encosto de Chacrete.
Significado
Encosto, em seu significado específico é um lugar ou objeto
em que alguém ou alguma coisa pode se encostar. No sentido figurado trata-se aquilo
que serve de amparo, de proteção. No espiritismo, um encosto é um espírito
desencarnado que se liga ao campo de energia de uma pessoa, alimentando-se da
sua vibe. Alguma alma que não aceita o inevitável fim, a morte.
Mas no contexto da minha vida, um encosto de Chacrete (expressão
da qual não sou dona) é uma espécie de renascimento meses antes de
eu fazer 50 anos.
Quando voltei a cuidar da minha saúde e revisito meus
conceitos estéticos. Como por exemplo, me conciliar com o animal print, o
encosto de Chacrete entra em cena.
Porque a Chacrete mostra a pele de fora, borda seu maiô de
paetê, vê o brega como substantivo e não adjetivo. E mesmo num flerte insistente com
a bagaceira, esse encosto nos dá um ar de sofisticação porque encontra a
ancestralidade pop brasileira e louva os detalhes que amávamos tanto naquelas
mulheres que botavam pra quebrar.
A moda, pela lógica do encosto de Chacrete é cara, pois
demanda brilho. Tecidos com brilho são difíceis de costurar ou para bordar
também dá mais trabalho. Ela é artesanal.
O encosto de Chacrete foi no início e continua sendo a expressão da mulher que resiste ao moralismo e está fora dos padrões de comportamento. Ela choca porque se diverte. O que explica muito dela herdado pelas mulheres trans contemporâneas.
Ontem e sempre.
Digo isso nesta época em que a ascensão das religiões neopentecostais
e do fascismo, invadem as vitrines com tons pastéis e sem graça, naquilo que
tem a expressão higienista do que se chama “clean girl”.
As assistentes de palco dos programas de auditório do
Chacrinha (teve a Discoteca, a Buzina e o Cassino) foram as mais de 500 moças
que ocuparam uma vaga no palco do ao longo de três décadas até 1980. Quem
comandava o show televisivo era o Chacrinha (donde o nome delas), também
conhecido como “velho guerreiro” e considerado o ícone da comunicação de massa
do Brasil no século XX.
As Chacretes também eram dançarinas que acompanhavam as
atrações musicais, com coreografias ousadas e figurinos com muito brilho, pluma
e pouca roupa. A principal atração eram os calouros. Quando cantavam muito mal
eram interrompidos por uma buzina e ganhavam um abacaxi como troféu.
Depois da morte do Velho Guerreiro e o fim das Chacretes na
TV, nenhum programa teve assistentes de palco tão expressivas. A marca e a
influência no comportamento delas é indelével.
Elas tinham nomes engraçados, como: Beth Balanço, Bia Zé
Colméia, Cambalhota, Chininha, Cida Cleópatra, Cléo Toda Pura, Daisy Cristal, Elza
Cobrinha, Fernanda Terremoto, Karina Fofura, Leda Zepelin, Lia Hollywood, Pimentinha,
Regina Pintinha, Rita Cadillac (a mais famosa de todas), Sandra Pérola Negra, Sandra
Veneno, Sandrinha Radical, Sarita Catatau, Soninha Toda Pura e Valéria Mon
Amour são alguns exemplos. Acho que até meu apelido entre amigos atrai
orgulhosamente o encosto e tem me ajudado, repito, a me reinventar nessa vida.
Deixa de ser chata e boba!
Penso que o mundo está vivendo numa era bélica dentro da velha
contradição entre o libertário e o conservador. As maiores armas que podem nos
servir vem da herança tropicalista do Brasil.
A julgar pelas mais recentes semanas de moda pelo mundo, as belas, recatadas e do lar estão fora da jogada. E a exposição da pele nas mulheres deixou o lugar de objetificação pura e simples para a retomada do poder de decidir pelo seu próprio corpo.
Afinal, se vestir sempre teve a ver
com a atitude que se coloca no mundo, e não a adequação de uniformes. E com as
Chacretes era assim: elas desfilavam um tema toda semana com muita pluma, paetê
e sensualidade.
Gosto muito dessa loja que tem sempre uma Chacrete encostada na sua coleção.





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